domingo, 30 de janeiro de 2011

NO CAMINHO DO AMOR

Em Jerusalém, nos arredores do Templo, adornada mulher encontrou um nazareno, de olhos fascinantes e lúcidos, de cabelos delicados e melancólicos sorriso, e fixou-o estranhamente.
Arrebatada na onda de simpatia a irradiar-se dele, corrigiu as dobras da túnica muito alva; colocou no olhar indizível expressão de doçura e, deixando perceber, nos meneios do corpo frágil, a visível paixão que a possuíra de súbito, abeirou-se do desconhecido e falou, ciciante:
-Jovem, as flores de Séforis encheram-me a ânfora do coração com deliciosos perfumes. Tenho felicidade ao teu dispor, em minha loja de essências finas...
Indicou extensa vila, cercada de rosas, à sombra de arvoredo acolhedor, e ajuntou:
-Inúmeros peregrinos cansados me buscam a procura do repouso que reconforta. Em minha primavera juvenil, encontram o prazer que representa a coroa da vida. E' que o lírio do vale não tem a carícia dos meus braços e a romã saborosa não possui o mel de meus lábios. Vem e vê! Dar-te-ei leito macio, tapetes dourados e vinho capitoso ... Acariciar-te-ei a fronte abatida e curar-te-ei o cansaço da viagem longa! Descansarás teus pés em água de nardo e ouvirás, feliz, as harpas e os alaúdes de meu jardim. Tenho a meu serviço músicos e dançarinas, exercitados em palácios ilustres!...
Ante a incompreensível mudez do viajor, tornou, súplice, depois de leve pausa:
-Jovem, porque não respondes? Descobri em teus olhos diferentes chama e assim procedo por amar-te. Tenho sede de afeição que me complete a vida. Atende! Atende!...
Ele parecia não perceber a vibração febril com que semelhantes palavras eram pronunciadas e, notando-lhe a expressão fisionômica indefinível, a vendedora de essências acrescentou uma tanto agastada:
-Não virás?
Constrangido por aquele olhar esfogueado, o forasteiro apenas murmurou:
-Agora, não. Depois, no entanto, quem sabe?!...
A mulher, ajaezada de enfeites, sentindo-se desprezada, prorrompeu em sarcasmos e partiu.

Transcorridos dois anos, quando Jesus levantava paralítico, ao pé do Tanque de Betesda, venerável anciã pediu-lhe socorro para infeliz criatura, atenazada de sofrimento.
O Mestre seguiu-a, sem hesitar.
Num pardieiro denegrido, um corpo chagado exalava gemido angustioso.
A disputada marcadora de aromas ali se encontrava carcomida de úlceras, de pele enegrecida e rosto disforme. Feridas sanguinolentas pontilhavam-lhe a carne, agora semelhante ao esterco da terra. exceção dos olhos profundos e indagadores, nada mais lhe restava da feminilidade antiga. Era uma sombra leprosa, de que ninguém ousava aproximar.
Fitou o Mestre e reconheceu-o.
Era o mesmo mancebo nazareno, de porte sublime e atraente expressão.
O Cristo estendeu-lhe os braços, tocados de intraduzível ternura e convidou:
-Vem a mim, tu que sofres! Na Casa de Meu Pai, nunca se extingue a esperança. A interpelada quis recuar, conturbada de assombro, mas não conseguiu mover os próprios dedos, vencida de dor.
O Mestre, porém, transbordando compaixão, prosternou-se fraternal, e conchegou-a, de
manso...
A infeliz reuniu todas as forças que lhe sobravam e perguntou, em voz reticenciosa e dorida
-Tu?... O Messias nazareno?... O Profeta que cura, reanima e alivia?!... Que viste fazer, junto de mulher tão miserável quanto eu?
Ele, contudo, sorriu benevolente, retrucando apenas:
-Agora, venho satisfazer-te os apelos.
E, recordando-lhe a palavra do primeiro encontro, acentuou, compassivo:
-Descubro em teus olhos diferentes chama e assim procedo por amar-te.
Pelo Espírito de Irmão X – Contos e Apólogos

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

COLÓQUIO ÍNTIMO

Jesus — tu me amas. Eu te amo. Não posso prescindir do teu amor, desse amor que significa tua presença em mim. Em tal importa o testemunho do quanto me queres. Sim, do quanto me queres, digo bem pois tu te dignas de entrar em contacto comido, apesar mesmo da imensurável distância em que me encontro da tua perfeição.
Tu me amaste primeiro. Eu ainda não te conhecia e tu já me amavas. Eu nada sabia de ti e tu já te havias sacrificado por mim.
Um dia senti de leve, muito leve, a influência do teu amor. Minha alma começou desde logo a despertar e a perceber em si própria a alvorada de uma vida nova.
Só então compreendi que ninguém pode ser ingrato em todo o tempo, nem permanecer insensível à influência do teu amor.
Certamente por isso tu disseste: Quando eu for levantado na cruz, atrairei todos a mim. Eu senti em mim o poder irresistível dessa atração, tal como a limalha que corre célere para o imã.
Perceber o teu amor é descobrir a fonte da vida eterna. Dizem que o amor é indefinível. João Evangelista confirma essa asserção, quando assim se exprime: "Deus é amor". Definiu o indefinível com o indefinível. Mas, tu, que és a luz do mundo, asseveraste com a autoridade da tua palavra, sempre confirmada, que nada há oculto que não seja revelado. E' assim que me revelaste o mistério o amor, através da tua comunhão comigo. O contacto contigo esclarece perfeitamente o que seja aquele sentimento, de cujo cultivo depende a solução de todos os problemas da vida, por isso que encerra toda a lei e toda a profecia.
Portanto, definirei o amor como a emoção que o Espírito encerrado no ergástulo da carne experimenta, quando em comunhão com o divino. De ti aprendi que é assim; e, como eu, todos os que já te conhecem.
Toda vez que tu me permites receber o ósculo celeste, percebo em mim o teu amor.A Lei veio por Moisés, mas a verdade e a graça vieram por ti. Vejo na sanção da Lei a dor, como efeito de causas por nós mesmos geradas. Vejo na graça a expressão do amor divino, atraindo o homem às regiões da luz.
Pela dor e pelo amor — pela Lei e pela graça — a redenção se opera e a morte é tragada na vitória.
Tu és o reflexo do amor de Deus, porque estás em íntima e perfeita comunhão com Ele. Sentir o teu amor é sentir o amor de Deus.
Não há dois amores: um só amor existe. Todavia, o amor se manifesta sob intensidades várias, como a Luz. Neste particular, é-me dado operar com o amor uma maravilha que a ti, a despeito de todo o poder que o Pai te concedeu no Céu e na Terra, não te é dado. O meu amor por ti cresce, aumenta continuamente, à medida que mais e melhor te conheço; mas, tu não podes fazer o mesmo, porque o amor, em ti, se ostenta em sua plenitude. Tu não me podes amar mais do que me amas; porém, eu te posso amar, e realmente te amo e amar-te-ei cada vez mais, até que o meu amor alcance a plenitude do teu.

E assim se vem cumprindo a tua profecia: Quando eu for levantado na cruz, atrairei todos a mim.
Vinicius (Pedro de Camargo) – Em torno do Mestre

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

ENCONTRO DIVINO

Quando o cavaleiro D´Arsonval, valoroso senhor em França, se ausentou do medievo domicílio, pela primeira vez, de armadura fulgindo ao Sol, dirigia-se à Itália para solver urgente questão política.
Eminente cristão trazia consigo um propósito central – servir ao Senhor, fielmente, para encontrá-lo. Não longe de suas portas, viu surgir, de inesperado, ulceroso mendigo a estender-lhe as mãos descarnadas e súplices.
Quem seria semelhante infeliz a vaguear sem rumo?
Preocupava-o serviço importante, em demasia, e, sem se dignar fixá-lo, atirou lhe a bolsa farta.
O nobre cavaleiro tornou ao lar e, mais tarde, menos afortunado nos negócios, deixou de novo a
casa.
Demandava a Espanha, em missão de prelados amigos, aos quais se devotara.
No mesmo lugar, postava-se o infortunado pedinte, com os braços em rogativa.
O fidalgo, intrigado, revolveu grande saco de viagem e dele retirou pequeno brilhante, arremessando-o ao triste caminheiro que parecia devorá-lo com o olhar.
Não se passou muito tempo e o castelão, menos feliz no círculo das finanças, necessitou viajar para a Inglaterra, onde pretendia solucionar vários problemas, alusivos à organização doméstica.
No mesmo trato de solo, é surpreendido pelo amargurado leproso, cuja velha petição se ergue no ar.
O cavaleiro arranca do chapéu estimada jóia de subido valor e projeta-a sobre o conhecido romeiro, orgulhosamente,
Decorridos alguns meses, o patrão feudal se movimenta na direção de porto distante, em busca de precioso empréstimo, destinado à própria economia, ameaçada de colapso fatal, e, no mesmo sítio, com rigorosa precisão, é interpelado pelo mendigo, cujas mãos, em chaga abertas, se voltam ansiosas para ele.
D´Arsonval, extremamente dedicado à caridade, não hesita. Despe fino manto e entrega-o, de longe, receando-lhe o contacto.
Depois de um ano, premido por questões de imediato interesse, vai a Paris invocar o socorro de autoridades e, sem qualquer alteração, é defrontado pelo mesmo lázaro, de feição dolorida, que lhe repete a antiga súplica.
O Castelão atira-lhe um gorro de alto preço, sem qualquer pausa no galope, em que seguia, presto.
Sucedem-se os dias e o nobre senhor, num ato de fé, abandona a respeitada residência, com séqüito festivo.
Representará os seus, junto à expedição de Godofredo de Bouillon, na cruzada com que se pretende libertar os Lugares Santos.
No mesmo ângulo da estrada, era aguardado pelo mendigo, que lhe reitera a solicitação em voz mais triste.
O ilustre viajor dá-lhe, então, rico farnel, sem oferecer-lhe a mínima atenção.
E, na Palestina D´Arsonval combateu valorosamente, caindo, ferido, em poder dos adversários.
Torturado, combalido e separado de seus compatriotas, por anos a fio, padeceu miséria e vexame, ataques e humilhações, até que um dia, homem convertido em fantasma, torna ao lar que não o reconhece.
Propalada a falsa notícia de sua morte, a esposa deu-se pressa em substituí-lo, à frente da casa, e seus filhos, revoltados, soltaram cães agressivos que o dilaceraram, cruelmente, sem comiseração para com o pranto que lhe escorria dos olhos semimortos.
Procurando velhas afeições, sofreu repugnância e sarcasmo.
Interpretado, agora, à conta de louco, o ex-fidalgo, em sombrio crepúsculo, ausentou-se, em definitivo, a passos vacilantes...
Seguir para onde? O mundo era pequeno demais para conter-lhe a dor.
Avançava, penosamente, quando encontro o mendigo.
Relembrou a passada grandeza e atentou para si mesmo, qual se buscasse alguma coisa para dar.
Contemplou o infeliz pela primeira vez e, cruzando com ele o olhar angustiado, sentiu que aquele homem, chegado e sozinho, devia ser seu irmão. Abriu os braços e caminhou para ele, tocado de simpatia, como se quisesse dar-lhe o calor do próprio sangue. Foi, então, que, recolhido no regaço do companheiro que considerava leproso, dele ouviu as sublimes palavras:
- D´Arsonval, vem a mim! Eu sou Jesus, teu amigo. Quem me procura no serviço ao próximo, mais cedo me encontra... Enquanto me buscavas à distância, eu te aguardava, aqui tão perto! Agradeço o ouro, as jóias, o manto, o agasalho e o pão que me deste, mas há muitos anos te estendia os meus braços, esperando o teu próprio coração!...
O antigo cavaleiro nada mais viu senão vasta senda de luz entre a Terra e o Céu...
Mas, no outro dia, quando os semeadores regressavam às lides do campo, sob a claridade da aurora, tropeçaram no orvalhado caminho com um cadáver.
D´Arsonval estava morto.
Pelo Espírito de Irmão X – Antologia Mediúnica de Natal

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Considerações sobre a infância - 4

O Espírito atravessa o período da infância assimilando, junto aos pais, a escola e a outros, informações boas ou más que serão determinantes para sua condição futura, de feliz ou de infeliz.

“(...) Esse estado corresponde a uma necessidade, está na ordem da natureza e de acordo com as vistas da Providência. É um período de repouso do Espírito.”
(Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, último parágrafo, Q. 382)

“Encarnado, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período, é mais acessível às impressões que recebe, capaz de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir os incumbidos de educá-lo.”
(Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, 4 Q. 385)

“A infância ainda tem outra utilidade. Os Espíritos só entram na vida corporal para se aperfeiçoarem, para se melhorarem. A delicadeza da idade infantil os torna brandos e acessíveis aos conselhos da experiência e dos que devam fazê-los progredir. Nessa fase é que se lhes pode reformar os caracteres e reprimir os maus pendores. Tal o dever que Deus impôs aos pais, missão sagrada de que terão de dar contas. Assim, portanto, a infância é não só útil, necessária, indispensável, mas também consequência natural das leis que Deus estabeleceu e que regem o Universo.”
(Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, dois últimos parágrafos, Q. 385)


“109 –O período infantil é o mais importante para a tarefa educativa?
-O período infantil é o mais sério e o mais propício à assimilação dos princípios educativos. Até aos sete anos, o Espírito ainda se encontra em fase de adaptação para a nova existência que lhe compete no mundo. Nessa idade, ainda não existe uma integração perfeita entre ele e a matéria orgânica.”
(O Consolador – Emmanuel – pergunta 109)


“Por impositivo da sabedoria Divina, no homem a infância demora maior período do que em outro animal qualquer. Isto porque enquanto o Espírito assume, a pouco e pouco, o controle da organização fisiológica de que serve para o processo evolutivo, mais fácil se fazem as possibilidades para a fixação da aprendizagem e a aquisição dos hábitos que o nortearão por toda a existência planetária.”
(Leis Morais da Vida - Joana de Ângelis)

O CANDIDATO APRESSADO

Quando Tiago, filho de Zebedeu, seguia o Mestre, a pequena distância, junto às margen do Jordão, eis que se aproxima jovem e piedoso senhor de terras, interessado em aderir ao Reino do Céu.
Resoluto, avançou para o apóstolo e indagou:
– Em verdade, o Messias é portador de uma Boa-Nova?
O seguidor do Nazareno, mostrando imensa alegria no olhar cândido e lúcido, informou, feliz:
– Sim, é o mensageiro da Vida Eterna. Teremos, com Ele, o mundo renovado: nem opressores, nem vítimas, e, sim, irmãos, filhos do mesmo Pai...
– A que lema ele obedece? – inquiriu o rapaz, dono de extensa propriedade.
– O amor a Deus, acima de tudo, e ao próximo como a nós mesmos – respondeu Tiago, sem titubear.
– E a norma de trabalho?
– Bondade para com todos os seres, inclusive os próprios inimigos.
– O programa?
– Cooperação com o Pai Supremo, sob todos os aspectos, em favor do mundo regenerado.
– O objetivo?
– Felicidade para todas as criaturas.
– Que diretrizes estatui para os momentos difíceis?
– Perdão extenso e sincero, esquecimento do mal, auxílio mútuo, fraternidade legítima, oração pelos adversários e perseguidores, serviço desinteressado e ação altruística sem recompensa, com absoluta perseverança no bem, até ao fim da luta.
– Espera vencer sem exército e sem armas?
– O Mestre confia no concurso dos homens de boa vontade, na salvação da Terra.
– E, mesmo assim, admite a vitória final?
– Sem dúvida. Nossa batalha é a da luz contra a sombra; dispensa a competição sangrenta.
– Que pede o condutor do movimento, além das qualidades nobres mais comuns?
– Extrema fidelidade a Deus, num coração valoroso e fraterno, disposto a servir na Terra em nome do Céu.
O moço rico exibiu estranho fulgor nos olhos móveis e perguntou, após ligeira pausa:
– Acredita possível meu ingresso no círculo do Profeta?
– Como não? – exclamou Tiago, doce e ingênuo.
E o rapaz passou a monologar, evidenciando sublime idealismo :
– Desde muitos anos, sonho com a renovação. Nossos costumes sofrem decadência. As vozes da Lei parecem mortas nos escritos sagrados. Fenece o povo escolhido, como a erva improdutiva que a Natureza amaldiçoa. O romano orgulhoso domina em toda parte.
O mundo é uma fornalha ardente, em que os legionários consomem os escravos. Enquanto isto, Israel dorme, imprevidente, olvidando a missão que Jeová lhe confiou...
Tiago assinalava-lhe os argumentos, deslumbrado. Nunca vira entusiasmo tão vibrante em homem tão jovem.
– O Messias nazareno – prosseguiu o rapaz, em tom beatífico – é o embaixador da verdade, E’ indispensável segui-lo na santificação. O Templo de Jerusalém é a casa bendita de nossa fé; entretanto, o luxo desbordante do culto externo, regado a sangue de touros e cabritos, obriga-nos a pensar em castigo próximo. Cerremos fileiras com o Restaurador. Nossos antepassados aguardavam-no. Aproximemo-nos dele, a fim de executar-lhe os planos celestiais.
Demorando agora o olhar na radiante fisionomia do filho de Zebedeu, acrescentou :
– Não posso viver noutro clima... Procurarei o Messias e trabalharei na edificação da nova Terra!...
Desvencilhou-se do cabaz de uvas amadurecidas que sustinha na mão direita e gritou:
– Não perderei mais tempo!...
Afastou-se, lépido, sem que o discípulo do Cristo lhe pudesse acompanhar as passadas largas.
Marcos, o evangelista, descreve-nos o episódio, no capítulo dez, encontrando-se a narrativa nos versículos dezessete a vinte e dois.
Pôs-se o rapaz a caminho e chegou, correndo, ao lado de Jesus. Arfava, cansado. Pretendia imediata admissão no Remo do Céu e, ajoelhando-se, exclamou para o Cristo.
– Bom Mestre, que farei para herdar a Vida Eterna?
O Divino Amigo contemplou-o, sem surpresa, e interrogou:
– Porque me chamas bom? ninguém é bom senão um, que é Deus.
Diante da insistência do candidato, indagou o Senhor quanto aos propósitos que o moviam, esclarecendo o rapaz que, desde a meninice, guardara os mandamentos da Lei. Jamais adulterara, nunca matara, nunca furtara e honrava pai e mãe em todos os dias da vida.
Terminando o ligeiro relatório, o jovem inquiriu, aflito:
– Posso incorporar-me, Senhor, ao Reino de Deus?
O Mestre, porém, sorriu, e explicou:
– Uma coisa, te falta. Vai, dispõe de tudo o que te prende aos interesses de vida, material, dando o que te pertence aos necessitados e aos pobres. Terás, assim, um, tesouro no céu. Feito isto, vem e segue-me.
Foi, então, que o admirável idealista exibiu intraduzível mudança. Num momento, esqueceu o domínio romano, a impenitência dos israelitas, o sonho de redenção do Templo, a Boa-Nova e o mundo renovado. Extrema palidez cobriu-lhe o rosto, e ele, que chegara correndo, retirou-se, em definitivo, passo a passo, muito triste...
Pelo Espírito de Irmão X – Luz acima

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O MACEBO RICO

O momento era de profunda significação. Sabia, por estranha intuição, que um dia defrontaria a Realidade, e a encontrava agora.
O apelo pairava vibrando em derredor: - “Vende tudo quanto tens, reparte-o pelos pobres, e terás um tesouro no céu; vem, e segue-me”.
Aquela voz penetrava como um punhal afiado e impregnava qual perfume de nardo.
Havia um magnetismo inconfundível naqueles olhos severos e profundos como duas estrelas engastadas na face pálida do amanhecer.
Tinha sede de paz.
Embora repousasse em leito de madeiras preciosas incrustados de ébano e lápis-lazúli, se banqueteasse em repastos opíparos, cuidasse do corpo com massagens de óleos e ungüentos raros, envolvendo-o em tecidos de linho leve, e suas arcas estivessem abarrotadas de gemas e ouro, sabia-se infeliz, sentia-se infeliz. Faltava-lhe ALGO que não se consegue facilmente.
Hesitava, no entanto.
Sua vivenda era luxuosa, seus pertences valiosos e vazio o seu coração.
Conquanto a juventude cantasse alegrias e festas em convites constantes ao prazer no corpo ágil e vigoroso, acalentava melhores aspirações, se disputava a posse total da paz. Era mais do que tormento essa necessidade. Não que desejasse a tranqüilidade aparatosa dos fariseus ou o repouso entorpecente dos mercadores opulentos, nem a serenidade enganosa dos cambistas abastecidos ou a senectude vitoriosa dos conquistadores em aposentadoria compulsória. Buscava integração harmoniosa, mas não sabia em quê.
Confragia-se e angustiava-se ignorando as nascentes da melancolia renitente que lhe dissipava sonhos e esperanças sob guante de inenarrável amargura.Buscava as competições em Cesaréia, todavia ignorava se essa busca representava uma realização ou fuga.
Agora, pela primeira vez, sentia-se arrebatado.
A meiguice e a ordem daquela vez, enunciada por aquele Homem, ecoavam como cascatas em desalinho nos abismos do espírito.
Interiormente gritava: “Irei contigo, Senhor, mas...”
Hesitava, sim, e a hora não comportava dubiedades.
Uma roseiras de flores rubras, que abraçava os ramos do arvoredo próximo, sacudida pelo vento, desgarrou-se e as pétalas da cor de sangue caíram-lhe aos pés, junto dEle, no alpendre, como sinais...
Donde o conhecia? – indagava, a medo , procurando recordar-se, com indivizível esforço mental.
Todo àquela hora era importante; mais do que isso: vital!
Ao vê-lo, de longe, era como se reencontrasse um amigo, um Celeste amigo.
Quando os seus descansaram nos olhos dEle, sentiu-se desnudado, o coração em descontrole sob violenta pulsação. Emoções inusitadas vibravam no seu ser, como jamais acontecera anteriormente. Desejou arrojar-se ao solo, esmagado por indômita constrição no peito.
Percebeu que o Estranho sorriu, como se o esperasse, como se o amasse, poderia afirmá-lo...
O tempo corria célere galopante as horas fugidias.
Seus lábios se afiguravam selados, e frio impertinente gelava-lhe as mãos.
Lutava por quebrar aquele torpor que o imobilizava.
Retalhos de luar tímido prateavam nuvens soltas no firmamento, bordando de luz oliveiras altivas e loendros em flor.
- Permite-me primeiro – conseguiu articular, vencendo a emoção que o transfigurava – competir em Cesaréia, logo mais, disputando para Israel os triunfos dos jogos...
-Não posso esperar. O Reino dos Céus começa hoje e agora para o teu espírito. Não há tempo a perder.
- Aguardei muito essa ocasião e ela se avizinha, com a chegada do período das competições... Exercitei-me, contratei escravos que me adestraram... aos partos comprei, por uma fortuna, duas parelhas de fogos cavalos... os jogos estão próximos...
- Renuncia, e segue-me!
Quem era Ele, que assim lhe falava? Que poder exercia sobre sua vontade? Por qual sortilégio o dominava?!... Gostaria de fugi ou deixar-se arrastar, estava perturbado; ignorada sofreguidão o aniquilava...
A horizontalidade das aflições humanas contemplava a verticalidade da sublimação divina: o cotidiano deparava com o infinito; o vale fitava o abismo das alturas e se perdia na imensidão.
O homem e o Filho do Homem se defrontavam.
O diálogo parecia impossível, reduzindo-se a um monólogo atormentante para o moço diante daquele Homem.
Vencendo irresistível temor, continuou o príncipe afortunado:
- Não receio dar o que possuo: dinheiro, ouro, gemas, títulos, se possível, pois sei que estes se gastam mui facilmente, mas...
- ...Dá-me a ti próprio e eu te oferecerei a ventura sem limite.
Que alto prêmio! Que pesado tributo! – pensou desanimado.
Era muito jovem e muitos confiavam nele. Possivelmente Israel lucraria com os seus lauréis e triunfos. Príncipe tinha pela frente as avenidas do poder a que se afervorava, PODER que no momento se destituída de qualquer valor.
Os bens, poderia ofertá-los, sim. Porém a fortuna da juventude, os tesouros vibrantes da vaidade atendida e dos caprichos sustentados, as honras de família resguardadas pela tradição, os corifeus agradáveis e bajuladores, oh! seria necessário renunciar-se a isso tudo? – interrogava-se, inquieto.
- Sim! – respondeu-lhe, sem palavras, com os olhos fulgurantes.
Sofria naqueles minutos a soma dos sofrimentos que experimentara a vida toda.
O ar cantava leves murmúrios enquanto as tulipas do campo teciam um manto sutil, rescendendo aromas.
O Rabi, em silencio, aguardava. E ele, em perplexidade, lancinava-se.
O diálogo tornara-se realmente impossível.
Subitamente, o príncipe de qualidade, num átimo de minuto, lembrou-se que amigos o aguardavam na cidade. Compromissos esperavam-no. Deveria debater os detalhes finais para a corrida na grande festa da semana entrante.
Acionado por estranho vigor, que dele se apossou repentinamente, fitou o Messias sereno e triste, balbuciando com voz apagada:
- Não posso. Não posso seguir-Te agora... Perdoa-me, se me amas!
E saiu quase a correr.
Sopravam os ventos frios que chegavam de longe, musicados pelo bulício das estrelas balouçantes.
A terra estuava sob a gramínea orvalhada.
O Mestre sentou-se e se encheu de profundo sofrimento.
Era assim, sempre assim que Ele ficava após a deserção dos convidados ao Banquete da Luz. A expressão de mansuetude e perdão que lhe brilhava nos olhos mergulhava em lágrimas, agasalhada em leves tons de amargura.
Assim O encontraram os discípulos. Interrogado, respondeu:
- “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas”!
Uma semana depois Cesaréia era a capital do ócio, do prazer.
Situada ao norte da planície de Sarom e a 30 quilômetros ao sul do Monte Carnelo, foi embelezada por Herodes que, no local, mandou erguer grande porto de mar, caracterizado por colossal quebra-mar enriquecendo-a com imponente Templo onde se levantava estátua do imperador.
Esse porto valioso sobre o Mediterrâneo era importante escoadouro de Israel e porta de entrada marítima onde atracavam embarcações de toda parte.
As vilas ajardinadas debruçavam-se sobre as encostas pardacentas da cidade, exibindo estilos arquitetônicos variados.
Pelo seu clima agradável, tornara-se residência oficial dos procuradores romanos, em Israel.
Tamareiras onduladas pelo vento adornavam as ruas e odores exóticos misturavam-se no ar varrido pela maresia.
As anêmonas escarlates ou “lírios do vale” e o narciso branco ou “rosa do Sarom” misturavam-se na planície.
Os festins de Cesáreia pretendiam rivalizar com os de Roma, atraindo aficionados até mesmo da Metrópole longínqua.
Ao som alegre de trompas e fanfarras começavam as festas públicas.
As competições de bigas abrem as corridas ante a aflição de judeus, romanos e gentios que deixaram sobre as mesas dos cambistas pesadas apostas nos seus ases.
Gladiadores em combates simulados, tocadores de pífanos e flautas, alaúdes e címbalos, enchem os intervalos de som e cor.
As quadrigas estão na linha de partida. Os fogosos corcéis, adquiridos aos partos, oriundos da Dalmácia, de Tiro, Sidon e da Arábia, empinam, lustrosos, ajaezados. Ao sinal dispram, sob estrondosa ovação.
Chicotes vibram no ar, mãos firmes nas rédeas, os guias e condutores dão velocidade aos carros frágeis. A celebridade prende a respiração em todos os peitos.
A expectativa fala sem voz na pulsação da tarde ardente e empoeirada.
Numa manobra menos feliz, um carro vira e um corpo tomba na arena, despedaçado pelas patas velozes, em disparada.
O moço rico sente as entranhas abertas, o suor e o sangue em pastas de lama, a respiração estertorada...
Enquanto escravos precípites arrastam-no na pista, foge mentalmente a cena brutal que o esmaga, e entre as névoas que lhe sombreiam os olhos parece vê-LO.
Silenciando os gritos na concha acústica tem a impressão de escutá-LO.
- Renuncia a ti mesmo, vem, e segue-ME.
- Amigo!...
Dois braços o envolvem veludosos e transparentes.
Apesar da face deformada e lavada pelas lágrimas, o suor e o sangue, ele dá a impressão de sorrir.
Pelo Espírito de Amélia Rodrigues – Primícias do Reino

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

SERVIR MAIS

Efraim bem Assef, caudilho de Israel contra o poderio romano, viera a Jerusalém para levantar as forças da resistência, e, informado de que Jesus, o profeta, fora recebido festivamente na cidade, resolveu procura-lo, na casa de Obede, o guardador de cabras, a fim de ouvi-lo.
― Mestre ― falou o guerreiro ―, não te procuro como quem desconhece a justiça de
Deus, que corrige os erros do mundo, todos os dias... Tenho necessidade de instrução para a minha conduta pessoal no auxílio do povo. Como agir, quando o orgulho dos outros se agiganta e nos entrava o caminho?... Quando a vaidade ostenta o poder e multiplica as lágrimas de quem chora?
― É preciso ser mais humilde e servir mais ― respondeu o Senhor, fixando nele o olhar translúcido.
― Mas... e quando a maldade se ergue, espreitando-nos a porta? Que fazer, quando os ímpios nos caluniam à feição de verdugos?
E Jesus:
― É preciso mais amor e servir mais.
― Senhor, e a palavra feroz? Que medidas tomar para coibi-la? Como proceder, quando a boca do ofensor cospe fogo de violência, qual nuvem de tempestade, arremessando raios de morte?
― É preciso mais brandura e servir mais.
― E diante dos golpes? Há criaturas que se esmeram na crueldade, ferindo-nos até o sangue... De que modo conduzir nosso passo, à frente dos que nos perseguem sem motivo e odeiam sem razão?
― É preciso mais paciência e servir mais.
― E a pilhagem Senhor? Que diretrizes buscar, perante aqueles que furtam, desapiedados e poderosos, assegurando a própria impunidade à custa do ouro que ajuntam sobre o pranto dos semelhantes?
― É preciso mais renúncia e servir mais.
― E os assassinos? Que comportamento adotar, junto daqueles que incendeiam campos e lares, exterminando mulheres e crianças?
― É preciso mais perdão e servir mais.
Exasperado, por não encontrar alicerces ao revide político que aspirava a empreender em mais larga escala, indagou Efraim:
― Mestre, que pretendes dizer por servir mais?
Jesus afagou uma das crianças que o procuravam e replicou, sem afetação:
― Convencidos de que a justiça de Deus está regendo a vida, a nossa obrigação, no mundo íntimo, é viver retamente na prática do bem, com a certeza de que a lei cuidará de todos. Não temos, desse modo, outro caminho mais alto se não servir ao bem dos semelhantes, sempre mais...
O chefe israelita, manifestando imenso desprezo, abandonou a pequena sala, sem despedir-se.
Decorridos dois dias, quando os esbirros do Sinédrio chegaram, em companhia de Judas, para deter o Messias, Efraim bem Assef estava à frente. E, sorrindo, ao algemar-lhe o pulso, qual se prendesse temível salteador, perguntou, sarcástico:
― Não reages, galileu?
Mas o Cristo pousou nele, de novo, o olhar tranqüilo e disse apenas:
― É preciso compreender e servir mais.
Pelo Espírito de Irmão X – Contos desta e de outra vida

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Considerações sobre a infância - 3

Fontes de problemas enfrentados pela criança, como justificativa para criar uma atividade que diferenciar-se-ia de uma evangelização infantil, que passaremos agora a denominá-la de Alívio a Problemas Espirituais Infantis (APEI):

a. inquietudes espontâneas oriundas de vivências danosas à consciência, experimentadas em encarnações anteriores;

“Alias, não é racional considerar-se a infância como um estado normal de inocência. Não se vêem crianças dotadas dos piores instintos, numa idade em que ainda nenhuma influência pode ter tido a educação? (...) Donde a precoce perversidade, senão da inferioridade do Espírito, uma vez que a educação em nada contribui para isso ?”
(O livro dos Espíritos - Questão 199-a).

“Desde pequenina, a criança manifesta os instintos bons e maus que traz da sua existência anterior. Todos os males se originam do egoísmo e do orgulho (...)”
(O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap.XIV item 9)



b. Ação de inimigos espirituais;

“(...) Vezes porém, ocorrem, nas quais além das personificações construídas pelo inconsciente, predominam entidades conscientes de outra dimensão, que obsidiam e atormentam aqueles a quem odeiam ou supõem lhes devam compreensão e amor. A psicoterapia dos passes, da renovação moral do paciente e do esclarecimento da personalidade subjugadora conseguem liberar a vítima...”
( Antologia Espiritual - Manoel Philomeno de Miranda)

“Não desconhecemos que a obsessão na infância tem caráter expiatório como efeito de ações danosas de curso mais grave. (...) A visão do Espiritismo em relação à criança obsidiada é holística, pois que não a dissocia, na sua forma atual, do adulto de ontem quando contraiu o débito. Ensina que infantil é somente o corpo, já que o Espírito possui uma diferente idade cronológica, nada correspondente à da matéria.”
(Trilhas da Libertação – pag. 27 – Manoel P. de Miranda, psicografia de Divaldo P. Franco)



c. Entorno familiar;

“Inveja, mágoa, ciúme, instabilidade, ódio, pusilanimidade e outros hediondos sentimentos que afligem as crianças maltratadas, carentes, abandonadas mesmo nas casas onde moram, desde que não são lares verdadeiros, constituem os mecanismos de reação de todos quantos se sentem infelizes, mesmo que inconscientemente.”
(Amor, imbatível Amor – Pelo Espírito de Joanna de Ângelis – Divaldo P.Franco)

“A criança mal amada, que padece violências físicas e psicológicas, vê o mundo e as pessoas através de uma visão óptica distorcida. As suas imagens estão focadas de maneira incorreta e, como consequência, causam-lhe pavor. Ademais, os comportamentos agressivos daqueles que lhe partilham a convivência atemorizando-a mediante ameaças de punições com seres perversos, animais e castigos de qualquer natureza, fazem-na fugir para lugar e situações vexatórios, nos quais o recolhimento oferece qualquer mecanismo de defesa, deixando-a abandonada.”
(Amor, imbatível Amor – Pelo Espírito de Joanna de Ângelis – Divaldo P.Franco)

“É na infância que se fixam em profundidade os acontecimentos, aliás, desde antes, na vida intra-uterina, quando o ser faz-se participante do futuro grupo familiar no qual renascerá. As impressões de aceitação como de rejeição se lhe insculpirão em profundidade, abençoando-o com o amor e a segurança ou dilacerando-lhe o sistema emocional, que passará a sofrer os efeitos inconscientes da animosidade de que foi objeto.
Da mesma forma, os acontecimentos à sua volta, direcionados ou não à sua pessoa, exercerão preponderante influência na formação da sua personalidade, tornando-a jovial, extrovertida ou conflitada, depressiva, insegura, em razão do ambiente que lhe plasmou o comportamento.
Essas marcas acompanhá-la-ão até a idade adulta, definindo-lhe a maneira de viver. Tornam-se feridas, quando de natureza perturbadora, que mesmo ao serem cicatrizadas, deixam sinais que somente uma terapia muito cuidadosa consegue anular.”
(Amor, imbatível Amor – Pelo Espírito de Joanna de Ângelis – Divaldo P.Franco)

A SUPERIOR JUSTIÇA

As duas faces das paixões humanas ali se configuravam, inconfundíveis: a violência, na sua agressividade infrene, ululante, destruidora, e a fuga, açodada pela fraqueza moral, batendo em retirada, sem dignidade.
A praça enorme, ensolarada, estava deserta.
O Sol dardejante se encontrava em triunfo.
Há pouco, agitava-se a mole quase assassina, sedenta de sangue, transferindo para uma vítima inerme as próprias debilidades e frustrações.
Não poucas vezes, a agressão resulta de um processo psicológico de transferência de culpa íntima, que se vê refletida noutrem, naquele que, em erro, caiu nas armadilhas do conhecimento público.
Não se sentindo encorajado para rechaçar as imperfeições, lapidando as arestas grosseiras da personalidade enferma, o agressor descarrega no próximo toda a vergonha que o aturde, a imensa insânia em que se estertora.
Fora a ocorrência, há pouco sucedida.
O vozerio cedera lugar ao silêncio, quase incômodo; a ruria caíra, iludindo-se em modorra, em afastamento discreto...
Daquele lado, se apedrejavam as adúlteras, lapidando-se pelo crime a que foram levadas por fatores variados.
No entanto, a voz serena e grave do estranho fulminara os agressores.
Nem sempre vige a pureza nos atos das criaturas, mas a aparência puritana tem neles primazia. Aos seus ouvidos ecoavam as blasfêmias; no corpo cansado as bofetadas e os primeiros golpes sofridos agora doíamo
Pessoa alguma lhe parecia conhecer os dramas íntimos, as úlceras purulentas em que se dilacerava...
H_ Ninguém te condenou? - Ele interrogara, triste e profundo. - Nem eu tampouco te condeno...” Ela, então, reflexionava, emocionada.
Depois de sentir-lhe a compaixão e ouvir-Lhe a voz, uma fulminante transformação ocorria no seu mundo interior.
"Donde O conhecia? - inquiriu-se. - Ele não seria o esperado, Aquele que mudaria a dureza da Lei, substituindo-a pela benevolência da recuperação?"
Passeando a memória pelas cenas de há pouco, reviu o esposo, esp~ejante, na fragilidade da sua suprema ignorância ofendida.
"Ele jamais lhe indagara das lágrimas que tragava, salgadas, em silêncio.
"Não se deixando escusar do delito, sabia que tombara, por lhe faltarem os valores para a resistência.
"Não caíra, no entanto, a sós...
"O esposo, soberbo, nunca lhe brindara ternura. Egoísta, jamais se recordara de aquecê-la com a solidariedade e o amor. Transitava ao seu lado, mais escrava do que companheira, enquanto lhe eram negados entendimento e amizade...
- Doador da Vida, abençoa meu campo! Peço-te! Amo profundamente a terra que me confiaste. celeiro do meu pão, recreio de meus olhos, esperança de minha velhice! ... I
O Pastor Divino sorriu para. ele; abençoou, afetuosamente, determinou aos auxiliares santificassem o ritmo das estações sobre o campo daquele trabalhador devastado, para que ali houvesse flores e frutos abundantes.
Em seguida, cavalheiro respeitável penetrou o recinto de luz, evidenciando nobre posição intelectual, e solicitou, reverente:
- Protetor dos Necessitados, o ideal de realizar algo de útil na Terra ntlama-me o espírito...
Dá-me possibilidades materiais, concede-me a temporária mordomia e teus infinitos bens! Quero combater o pauperismo, a fome, a nudez, entre os homens encarnados ... Auxilia-me por compaixão!
O Embaixador do Sumo Bem contemplou-o, satisfeito, aquiesce com palavras de estímuulo e
designou adjuntos para a articulação de providências, quanto à satisfação do pedido.
Minutos depois, entrou um filósofo que implorou: ~
- Sábio dos sábios, dá-me inspiração para renovar a cultura terrestre L ..
O Cristo aprovou a petição, concedendo-lhe vasto séquito de inst tores.
E a legião dos suplicantes prosseguia sempre, movimentada e feliz, valendo-se da visita providencial do Celeste Benfeitor às sombrias fronteiras da carne. Jesus tendia sempre, ministrando incentivos e alegrias, graças e consolações, determinando medidas aos assessores diretos.
Em dado instante, porém, o círculo foi penetrado por um homem diferente. Seu olhar lúcido falava de profunda sede interior, seus gestos respeitosos traduziam confiança veneração imensas.
Ajoelhou-se, humilde, estendeu os braços para o Emissário do E mo Pai e, ao contrário de quantos lhe haviam precedido na súplica, explicou-se com simplicidade:
- Senhor, eu sei que sempre dás, conforme nossos rogos.
Ante a estupefação geral, continuou:
- Há quase vinte séculos, ensinaste-nos que o homem achará o que procura e receberá o que pede...
O Divino Orientador ouvia, comovido, enquanto os demais seguiam. Acena com admiração.
O visitante reverente deixou cair lágrimas sinceras e prosseguiu:
- Vezes inúmeras, tenho lidado com o desejo e a posse, com a esperança e a realização, nos círculos transitórios da existência carnal. Estou pronto para cumprir-te os desígnios superiores, seja onde for, quando e como quiseres, mas, se permites, rogo-te luz divina d teu coração para o meu coração, paz, alegria e vigor imortais de tua alma para minha alma! ... Quero seguir-te, enfim! ...
Com doçura admirável, o Mestre tocou-lhe a fronte e indagou:
- Queres ser meu discípulo?
- Sim! - respondeu o aspirante da luz.
Calou-se o Cristo. Verificando-se intervalos mais longos, e considerando que todos os pedintes haviam recebido gratificações e júbilos imediatos, o aprendiz perguntou:
- Que me reservas, Senhor?
O Doador das Bênçãos contemplou-o com ternura e informou:
- Volta ao campo de teus deveres. Entender-me-ei contigo diretamente
E depois de um silêncio, que ninguém ousou interromper, o Mestre concluiu: - Reservar-te-ei a lição.
Pelo Espírito de Amélia Rodrigues – Há Flores no Caminho

domingo, 16 de janeiro de 2011

Considerções sobre A infância - 2

Na condição de criança, o espírito encontra-se com seus potenciais e faculdades restringidos. Portanto, não é um adulto em miniatura Só com o desenvolvimento dos órgãos retoma a capacidade de reflexão, o juízo de valor e o livre arbítrio;

“Desde que se trate de uma criança, é claro que, não estando ainda nela desenvolvidos, não podem os órgãos da inteligência dar toda a intuição própria de um adulto ao Espírito que o anima. Este, pois, tem, efetivamente, limitada a inteligência, enquanto a idade lhe não amadurece a razão. A perturbação que o ato da encarnação produz no Espírito não cessa de súbito, por ocasião do nascimento. Só gradualmente se dissipa, com o desenvolvimento dos órgãos.”
(O Livro dos Espíritos - Questão 380)

“(...) É que o Espírito retoma a natureza que lhe é própria e se mostra qual era.”
(Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, último parágrafo, Q. 383)

A ERA DO AMOR

O dia fora especialmente cálido.
Mesmo ao declinar da tarde, permaneciam no ar as correntes tórridas que sopravam desagradáveis. A mensagem de libertação espraiava-se por toda parte, já impossível de ser de ida.
O Mestre conseguira tornar-se a esperança das multidões saturadas pelos sofrimentos e sem mais amplas aspirações em relação ao futuro.
Todos O viam como sendo a resposta de Deus às inumeráveis necessidades da criatura humana.
Ao tempo, no entanto, que o Seu verbo derramava as bênçãos de paz e alento entre os sofredores, os que se permitiam a dominação arbitrária das consciências e do comportamento do povo, se levantavam contra Ele, tentando embaraçá-lO, denegrir-Lhe o conteúdo da palavra, lançá-lO contra a rigidez da Lei Mosaica...
Na oportunidade, leniam os corações, os ensinamentos a respeito do amor, do perdão das ofensas e da compreensão das faltas do próximo, provocando acirrados debates entre os Seus adversários gratuitos, que O acusavam de contrariar o Estatuto legal vigente, herança enfermiça dos princípios de talião.
Foi tomado pelo rancor, face à serenidade do senhor, que Nathan Ben Assad, fariseu conhecido pela conduta excessivamente austera, procurou o Amigo dos infortunados e Lhe indagou, arrogante, em plena praça, na risonha e bela Cafarnaum:
- Tu ensinas - perguntou-lhe com desdém - o amor irrestrito e o perdão incessante, em quaisquer circunstâncias e a todas as pessoas?
A interrogação direta recebeu uma resposta imediata e clara.
- Sim.Do contrário não é legítimo o amor que se limita a circunstâncias e se circunscreve a indivíduos especiais. O verdadeiro amor é atitude interior que se expande como acontece com o ar, que a tudo e a todos vitaliza.
- Mesmo àqueles que fomentam o ódio, que se tornam execrandos pelos crimes que perpetam?
- Sem dúvida. A todos estes, porquanto mais do que os outros, eles se encontram enfermos e necessitados, carecendo da terapia do amor, a fim de se recuperarem do mal que os afligem, tornando-se, então, cidadãos úteis ao conjunto social.
- E o criminoso insensível - retrucou com a face congestionada pela cólera surda que o dominava
- Não deve ser justiçado pelas cortes encarregadas de preservar a paz e a ordem, defendendo os fracos?
- Justiçar - redarguiu Jesus, sereno - não significa punir, revidar com o mal, o mal que foi feito, tripudiar sobre as suas misérias e ulcerações morais .... Justiçar, deve ser, antes de tudo, propiciar a oportunidade da reparação, de educação do revel para a vida digna.
"Na raiz de muitos males encontramos a ignorância como geratriz de todos esses infortúnios.
" O criminoso é um enfermo, vitimado em si mesmo por desequilíbrios que ignora. Adicionados a essa causa, há os fatores sociais, econômicos, emocionais, que fomentam a alucinação a desbordar no crime, na delinquência..."
- Não será justo, então, segundo o teu código, matar legalmente aquele que mata, cobrar "olho por olho e dente por dente", daquele que desgraçou outrem, roubou-lhe a vida, di lapidou o patrimônio alheio.
A lei de amor procede do Pai, Causa lncausada do Universo, que estabelece o equilíbrio nas leis naturais como regra da felicidade e de ordem no Cosmo ... Punir, é reagir com ódio; cobrar erro com vingança é ser pior do que o delinqüente, pois que este é infeliz, enquanto o Juiz, em nome da sociedade e graças ao conhecimento que possui deve ser sadio emocionalmente e equilibrado nas suas decisões, a fim de ser melhor do que o criminoso.
"Somente o ódio é vingador; e como a vingança expressa o estágio de primitivismo da criatura, esta não pode ser trazida ao código das leis em nome da Justiça".
- Será, então, lícito, deixar o criminoso à solta, a fim de que ele prossiga na sua carreira destrutiva?
- Não chegaremos a tanto. A técnica do amor receita para o delinqüente a terapia do afastamento temporário da sociedade, qual ocorre com um doente portador de contágio, a fim de ser devidamente tratado. para posterior reintegração na comunidade dos sadios.
E olhando fixamente o inquiridor, com doçura mesclada de sabedoria, o Mestre tentou encerrar a entrevista, dizendo:
- Matar o assassino não restitui a vida à vítima; amputar os dedos ou as mãos ao ladrão, não devolve o furto ao seu dono; arrancar a língua do caluniador, de forma alguma repara os males que a acusação falsa causou ao outro...
"O amor reabilita moralmente o caído, oferecendo-lhe osl recursos para a própria recuperação, após a qual reparará os males praticados e seguirá além, abençoando as vidas pelo caminho, com os tesouros da sua boa vontade, graças à consciência dos novos deveres.
"Quando o amor penetrar o íntimo dos homens, o ódio, que é a doença do egoísmo, cederá lugar à fraternidade e à compreensão..."
- E o perdão deverá ser sempre e constante, seja qual for o erro perpetrado?
Jesus relanceou o olhar amigo pela multidão ansiosa, que acompanhava o diálogo, e arrematou:
- o dever é perdoar setenta vezes sete vezes cada erro da criatura, a fim de que aquele que perdoa sinta-se realmente em condições de ser irmão do seu próximo e saber que o seu é amor por excelência, que procede do Pai e nada lhe pode entorpecer a grandiosidade.
Nathan Sen Assad meneou a cabeça, arrogante, e, lançando sobre o ombro parte do talit de orações, que lhe caía da cabeça ao longo das costas, bateu as sandálias no solo, levantando pó, e retirou- se, vociferando, sem querer entender a preciosa lição de amor. I
Como se nada tivesse acontecido, mantendo o mesmo tom de b01dade na voz e gentileza nos atos, Jesus prosseguiu, explicando:
- O amor, em qualquer expressão, é a presença do Pai Criador sustátandO a vida e dignificando as Suas criaturas. Um dia triunfará sobre todas as conjunturas e regerá todas vidas.
Iniciava-se ali a era do amor sem limite, único antídoto contra o ódio, que remanesce das paisagens morais primitivas do homem e que cederá lugar, oportunamente, à fraternidade e à paz nos dias do futuro.
Pelo Espírito de Amélia Rodrigues – Pelos Caminhos de Jesus

sábado, 15 de janeiro de 2011

A ESCRAVA DO SENHOR

Quando João, o discípulo amado, veio Ter com Maria, anunciando-lhe a detenção do Mestre, o coração materno, consternado, recolheu-se ao santuário da prece e rogou ao Senhor Supremo poupasse o filho querido. Não era Jesus o Embaixador Divino? Não recebera a notificação dos anjos, quanto à sua condição celeste? Seu filho amado nascera para a salvação dos oprimidos... Ilustraria o nome de Israel, seria o rei diferente, cheio de amoroso poder. Curava leprosos, levantava paralíticos sem esperança. A ressurreição de Lázaro, já sepultado, não bastaria para elevá-lo ao cume da glorificação?
E Maria confiou ao Deus de Misericórdia suas preocupações e súplicas, esperando-lhe a providência; entretanto, João voltou em horas breves, para dizer-lhe que o Messias fora encarcerado.
A Mãe Santíssima regressou à oração em silêncio. Em pranto, implorou o favor do Pai Celestial. Confiaria nEle.
Desejava enfrentar a situação, desassombradamente, procurando as autoridades de Jerusalém. Mas, humilde e pobre, que conseguiria dos poderosos da Terra? E, acaso, não contava com a proteção do Céu? Certamente, o Deus de Bondade Infinita, que seu filho revelara ao mundo, salvá-lo-ia da prisão, restituí-lo-ia à liberdade.
Maria manteve-se vigilante. Afastando-se da casa modesta a que se recolhera, ganhou a rua e intentou penetrar o cárcere; todavia, não conseguiu comover o coração dos guardas.
Noite alta, velava, súplice, entre a angústia e a confiança.
Mais tarde, João voltou, comunicando-lhe as novas dificuldades surgidas. O Mestre fora acusado pelos sacerdotes. Estava sozinho. E Pilatos, o administrador romano, hesitando entre os dispositivos da lei e as exigências do povo, enviara o Mestre à consideração de Herodes.
Maria não pôde conter-se. Segui-lo-ia de perto.
Resoluta, abrigou-se num manto discreto e tornou à via Pública, multiplicando as rogativas
ao Céu, em sua maternal aflição. Naturalmente, Deus modificaria os acontecimentos, tocando a alma de Antipas. Não duvidaria um instante. Que fizera seu filho para receber afrontas? Não reverenciava a lei? Não espalhava sublimes consolações? Amparada pela convertida de Magdala, alcançou as vizinhanças do palácio do tretarca. Oh! Infinita amargura! Jesus fora vestido com uma túnica de ironia e ostentava, nas mãos, uma cana suja à maneira de cetro e, como se isso não bastasse, fora também coroado de libertar-lhe a fronte sangrenta e arrebatá-lo da situação dolorosa, mas o filho, sereno e resignado, endereçou-lhe o olhar mais significativo de toda a existência. Compreendeu que ele a induzia à oração e, em silêncio, lhe pedia confiança no Pai. Conteve-se, mas o seguiu em pranto, rogando a intervenção divina. Impossível que o Pai não se manifestasse. Não era seu filho o escolhido para a salvação? Lembrou-lhe a infância, amparada pelos anjos... Guardava a impressão de que a Estrela Brilhante, que lhe anunciara o nascimento, ainda resplandecia no alto!...
A multidão estacou, de súbito. Interrompera-se a marcha para que o governador romano se pronunciasse em definitivo.
Maria confiava. Quem sabe chegara o instante da ordem de Deus? O Supremo Senhor poderia inspirar diretamente o juiz da causa. Após ansiedades longas, Pôncio Pilatos, num esforço extremo para salvar o acusado, convidou a turba farisaica a escolher este Jesus, o Divino Benfeitor, e Barrabás, o bandido. O povo ia falar e o povo devia muitas benções ao seu filho querido. Como equiparar o Mensageiro do Pai ao malfeitor cruel que todos conheciam? A multidão, porém, manifestouse, pedindo a liberdade para Barrabás e a crucificação para Jesus. Oh! - pensou a mãe atormentada - onde está o Eterno que não me ouve as orações? Onde permanecem os anjos que me falavam em luminosas promessas?
Em copioso pranto, viu seu filho vergado ao peso da cruz. Ele caminhava com dificuldade, corpo trêmulo pelas vergastadas recebidas e, obedecendo ao instinto natural, Maria avançou para oferecer-lhe auxílio. Contiveram-na, todavia, os soldados que rodeavam o Condenado Divino.
Angustiada, recordou-se repentinamente de Abraão. O generoso patriarca, noutro tempo, movido pela voz de Deus, conduzira o filho amado ao sacrifício. Seguira Isaac inocente, dilacerado de dor atendendo a recomendação de Jeová, mas, eis que no instante derradeiro, o Senhor determinou o contrário, e o pai de Israel regressara ao santuário doméstico em soberano triunfo. Certamente, o Deus Compassivo escutava-lhe as súplicas e reservava-lhe júbilo igual. Jesus desceria do Calvário, vitorioso, para o seu amor, continuando no apostolado da redenção; no entanto, dolorosamente surpreendida, viu-o içado no madeiro, entre ladrões.
Oh! A terrível angústia daquela hora!! ... Por que não a ouvira o Poderoso Pai? Que fizera para não lhe merecer a benção?
Desalentada, ferida, ouvia a voz do filho, recomendando-a aos cuidados de João, o companheiro fiel. Registrou-lhe, humilhada, as palavras derradeiras. Mas, quando a sublime cabeça pendeu inerte, Maria recordou a visita do anjo, antes do Natal Divino. Em retrospecto maravilhoso, escutou-lhe a saudação celestial. Misteriosa força assenhoreava-se-lhe do espírito.
Sim... Jesus era seu filho, todavia, antes de tudo, era o Mensageiro de Deus. Ela possuía desejos humanos, mas o Supremo Senhor guardava eternos e insondáveis desígnios. O carinho materno poderia sofrer, contudo, a Vontade Celeste regozijava-se. Poderia haver lágrimas em seus olhos, mas brilhariam festas de vitória no Reino de Deus. Suplicara aparentemente em vão, porquanto, certo, o Todo-Poderoso atendera-lhe os rogos, não segundo os seus anseios de mãe e sim de acordo com seu planos divinos.
Foi então que, Maria, compreendendo a perfeição, a misericórdia e justiça da Vontade do Pai, ajoelhou-se aos pés da cruz e, contemplando o filho morto, repetiu as inesquecíveis afirmações: - "Senhor, eis aqui a tua serva! Cumpra-se em mim, segundo a tua palavra!".

Pelo Espírito de Irmão X – Lázaro Redivivo


Palestra de Divaldo Franco sobre Maria

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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Considerações sobre a infância

A partir de hoje passaremos a postar textos sobre a temática infantil.
Faremos as considerações e logo abaixo retiramos textos espíritos que justifiquem a assertiva.
Esse estudo foi realizado como base para atividade desenvolvida com crianças em um centro espírita em Manaus/AM.

Iniciaremos com o seguinte consideração:

A criança é espírito pré-existente, reencarnado para progredir, que recebe de Deus a característica de fragilidade e de inocência para ser alvo de amor e cuidado e não de punições e rigor.

“(...)As crianças são os seres que Deus manda a novas existências. Para que não lhe possam imputar excessiva severidade, dá-lhes Ele todos os aspectos da inocência. Ainda quando se trata de uma criança de maus pendores, cobrem-se-lhe as más ações com a capa da inocência.”
“(...)Não foi, todavia, por elas somente que Deus lhes deu esse aspecto de inocência; foi também e sobretudo por seus pais, de cujo amor necessita a fraqueza que as caracteriza. Ora, esse amor se enfraqueceria grandemente à vista de um caráter áspero e intratável, ao passo que, julgando seus filhos bons e dóceis, os pais lhes dedicam toda a afeição e os cercam dos mais minuciosos cuidados(...).”
(Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, § 3 e 4 Q. 385)

ROGATIVA REAJUSTADA

Ildefonso, o filho de Dona Malvina Chaves, dama profundamente virtuosa e devotada à causa do bem, há quatro longos anos jazia semi-acamado; entretanto, preso à situação difícil, assemelhava-se a um cordeiro. Parecia estimar as preces maternas, consagravase à leitura edificante e sabia conversar, respeitoso e gentil, encorajando quem o visitasse.
Contemplando-o, comovidamente, a desvelada mãe inquiria o Médico Divino, ansiosa:
– Senhor, que motivo trouxe meu filho à invalidez? Não te parece doloroso imobilizar a juventude aos dezoito anos? Traze-o, de novo, aos movimentos da vida! Restaura-lhe o equilíbrio, por piedade! Levanta-o e consagrar-me-ei inteiramente ao teu divino serviço!...
As lágrimas do sublime coração materno sufocavam as palavras na garganta, emocionando os amigos espirituais que a assistiam em silêncio.
No propósito de obter a concessão celeste, a prestativa senhora sacrificava-se através de todas as atividades socorristas.
Visitava moribundos, amparava sofredoras, protegia crianças abandonadas e arriscava a própria saúde e os recursos na caridade operante, conquistando prestigiosos colaboradores no plano invisível.
Em virtude dos inúmeros laços de simpatia e reconhecimento, as súplicas da estimada matrona eram agora secundadas por imenso grupo de entidades espirituais, que imploravam diariamente a renovação do destino de Ildefonso. Reclamava-se para ele plena liberdade de movimentação. Esclarecia-se que na hipótese de o enfermo não merecer a graça, o benefício não deveria tardar, mesmo assim, considerando-se os méritos da genitora, mulher admirável na fé e no devotamento.
Tantos rogos se multiplicaram e tantas simpatias se entrelaçaram, que, um dia, a ordem chegou de mais alto, determinado que o jovem fosse reajustado cem por cem.
Os trabalhadores invisíveis, jubilosos, aguardaram ensejo adequado; e quando surgiu um médium notável, no setor da tarefa curativa, a Senhora Chaves foi inspirada a conduzir o filho até ele.
O missionário recebeu-a solícito e declarou-se pronto a contribuir no socorro ao doente, em obediência aos desígnios superiores.
A mãezinha fervorosa observou, no entanto, que aguardava a cura completa, era face da confiança que a orientara até ali.
O servo da saúde humana,, cercado de espíritos amorosos e agradecidos, orou, impôs as mãos sobre o hemiplégico e transmitiu, vigorosamente, os fluidos regenerativos dos benfeitores desencarnados.
Em breves dias, o prodígio estava realizado.
Ildefonso recuperou o equilíbrio orgânico, integralmente.
E a genitora, feliz, celebrou a bênção, multiplicando serviços de compaixão fraterna e gestos de elevada renovação espiritual.
Um mês desdobrara os dias consuma, quando Dona Malvina começou a desiludir-se.
Ildefonso, curado, era outro homem. Perdera o amor pelas coisas sagradas. Pronunciava palavrões de minuto a minuto. Convidado à prece, informava, irreverente, que a religião era material de enfermarias e asilos e que não era doente nem velho para ocupar-se de semelhante mister.
Inadaptado ao trabalho, fugia à disciplina benéfica. Trocava o dia pela noite, tal a pressa de esfalfar-se em noitadas ruidosas. Parecia vigilante do clube noturno e suas despesas desordenadas não chegavam a termo. Se a mãezinha pedia reconsideração e atitudes, sorria, escarninho, asseverando a intenção de recuperar o tempo que perdera através de espreguiçadeiras, drogas e injeções.
Com dez meses; era um transviado autêntico.
Embriagava-se todas as noites, tornando ao lar nos braços de amigos, e, quando a genitora, impondo-lhe repreensões educativas, se negou a pagar-lhe a centésima conta mais exagerada, Ildefonso falsificou a assinatura de um tio em escandaloso saque de grandes proporções.
A generosa mãe não sabia como solver o enigma do filho rebelde e ingrato.
Queixas surgiam de toda parte. Autoridades e parentes, amigos e desconhecidos traziam reclamações infindáveis.
A abnegada senhora via-se aflita e estonteada, ignorando como reajustar a situação, quando, certa noite, pedindo ao filho ébrio lhe respeitasse os cabelos brancos, foi por ele agredida a pauladas que lhe provocaram angustiosas feridas no coração. Sem palavras de revolta, Dona Malvina, a abençoada intercessora, procurou a câmara íntima, em silêncio, e rogou:
– Médico Divino, compreendo-te agora, os desígnios sábios e justos. Meu filho é também uma ovelha de teu infinito rebanho!... Não permitas, Divino Amigo, que ele se converta num mostro!... Não sei, Senhor, como definir-lhe as necessidades, mas faze-me entender-te as sentenças compassivas e modifica-lhe a rota
desventurada!...
Enxugando o pranto copioso, repetiu as palavras evangélicas:
– Sou tua serva... Faça-se em mim, segundo a tua vontade!...
Intensa luminosidade espiritual resplandecia em torno de sua cabeça venerável. Nova benção desceu de mais alto e, com surpresa de todos no dia imediato, Ildefonso acordou paralítico...
Pelo Espírito de Irmão X – Luz acima

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

O ESTRANHO ENCONTRO

Aminadab, velho e opulento mercador, resolveu aposentar-se após a laboriosa existência.
Cercando-se de comodidades, apresentou à alma um programa de fascinante felicidade para os últimos dias da vida.
Quando já desfrutava dos favores que a fortuna pode adquirir, ouviu peregrinos falarem de Jesus, que afirmavam se encontrarem fechadas as portas dos céus aos opulentos e gozadores...
Impressionado pela assertiva ousada do Homem Desconhecido, e tocado no sentimento por outras anotações que coligira a respeito dos Seus discursos, o velho ambicioso resolveu partir em caravana faustosa, ao encontro do estranho Messias.
Aproveitando a quadra risonha da primavera, empreendeu a viagem, acomodando-se em liteira ornada de sedas e ouro, à moda romana, ordenando aos servos que o conduzissem às margens frescas do mar da Galiléia, onde Ele costumava pregar.
Acompanhado por um cortejo de alegres amigos, passava as noite sob a luz coruscante das estrelas em barracas de cores álacres. Embora o júbilo da jornada, Aminadab sentia, no coração, indefinível, desconhecido anseio de seguir o estranho Nazareno que lhe fascinava a alma cética e cansada, ao encontrá-lO, se fossem verdadeiros os fios que Lhe exornavam o nome.
A viagem fazia-se longa e cansativa para quem vinha de além das bandas áridas da Peréia, vencendo caminhos abrasados, onde a miséria exameava.
Poucos dias de marcha a pé, em clara manhã, a jovial caravana parou junto a antigo poço que atendia a sede de aldeia vizinha e misérrima. Ventos impiedosos, à vespera, obstruíram a generosa fonte deixando aflitos e infelizes os beneficiários da sua linfa clara. Aminadab contemplou os semblantes marcados de dor em mulheres miseráveis e homens alquebrados ante a nascente perdida e, embora sentisse num ímpeto desconhecido, veemente vontade de refazer o poço, lembrou-se da viagem encetada, continuando, indiferente, a jornada.
Adiante, quando já escutava o murmúrio do mar abraçando as praias pedrogosas, crianças esfaimadas, qual bando de pardais, inspirando compaixão, cercaram a caravana, a suplicarem socorro...
a viajante experimentou novo impulso de generosidade ante os míseros meninos, desejando ofertar algumas migalhas das muitas reservas que carregava, no entanto, desculpou-se consigo mesmo, considerando não poder resolver o problema de todo o mundo que passava necessidades, e avançou mais apressado, ordenando aos escravos que se afastassem de tais caminhos.
Já à orla do mar, em incendiado crepúsculo, enquanto procurava o Rabi miraculoso, Aminadab vislumbrou a certa distância um grupo entretido junto a velho barco encalhado da areia.
Acercou-se, ligeiro, dos homens, e indagou por Jesus.
A resposta fulminou as esperanças do mercador aposentado: - Jesus partira para Jerusalém ao amanhecer daquele dia ...
Fitando o rosto do interlocutor, Aminadab descobriu as pústulas da morféia, no semblante desfigurado do estranho. Não teve forças para correr. Todos os que ali estavam vinham tangidos da Síria pela dor, em busca do abençoado Taumaturgo e não a encontraram. Desejaram seguir até Jerusalém, todavia, sem dinheiro nem pão, discutiam os meios de como continuar a empresa.
Aminadab apiedou-se deles. Quando se dispunha a doar-Ihes algumas moedas de ouro, lembrou-se de si mesmo e fugiu, qual alucinado pelo pavor, indo banhar-se e untar o corpo com óleos perfumados, a fim de liberar-se do contágio.
Demorou-se pela agradável região e depois seguiu com os áulicos e amigos a Jerusalém. Quando lá chegou. todavia, o Mestre houvera partido para o Reino ...
Aminadab, desencantado, então, chorou.
Abandonou, sozinho, a Cidade, e procurando as árvores vetustas, perto dos arredores, repousou o corpo fatigado. Profundo cismar empolgou-lhe a alma decepcionada.
Por que fora tão infeliz na excursão? - indagava-se intimamente.
Sem se aperceber orou a Jeová, o Grande Deus, ralado na alma por dores torturantes. Descobriu que amava aquele homem que fora sacrificado e de quem todos falavam com emoção.
Tão sincera foi-lhe a prece, que, entre as sombras da noite plena, Aminadab viu um ponto luminoso modelando um homem que se aproximava do local onde descansava. - "Que queres de mim?" - Perguntou o visitante de vestes luminosas.
Aminadab levantou-se de um salto e compreendeu estar diante do Filho do Carpinteiro. - "Contemplar-Te a face!"- respondeu, apressado.
- "Não tenho tempo de parar, a fim de atender-te, amigo." - Retrucou Jesus.
- "Mas, Senhor"• retomou o negociante que programara um roteiro de felicidade para a alma, na aposentadoria do corpo -, abandonei o conforto do lar para vir conhecer-Te, suportando os perigos da longa viagem, ansioso por estar contigo e não me podes deixar banhar o espírito no oceano da tua paz?"
- "Tenho seguido contigo, companheiro."- Acentuou o Mestre com meiga entonação de voz.
- "Como não Te vi, em parte alguma, Rabi?" - Indagou, ansioso e desolado, o hábil mercador.
Jesus sorriu, triste e elucidou:
- "Quando a tua liteira se ergueu da terra e repousou no dorso dos escravos, eu te admoestei em colóquio contigo: "Por que deixar que os outros de carreguem, se tens pés sadios? "
"Escutaste n'alma e silenciaste minha voz, com um encolher de ombros.
"Junto ao poço vencido pelos ventos, a caminho da Galiléia, estimulei o teu coração, sussurrando: "Levanta-te e ajuda-os, eles bendirão o teu nome."
"Tinhas pressa de encontrar-te comigo e não quiseste parar.
"Quando as crianças em sofrimento junto às praias do mar, te rogaram pão, concitei-te ao socorro, todavia te enervaste com a algazarra da miséria infantil.
"Por fim, quando te conduzi aos leprosos que também me buscavam, inspirando-te auxiliá-los a chegarem até mim, fugiste, apavorado, negando-lhes ajuda. Sem embargo desperdiçaste óleo e bálsamo, para limpar-te de quaisquer impurezas ... Aminadab!. .. "
Depois de algum silêncio, Jesus dispondo-se a seguir além, acentuou:
- "Se me amas, conforme supões, vem e segue-me. A dor espera por todos nós. Renuncia a tudo e só então, eu te darei um tesouro no Céu..."
O Amigo em luz desapareceu entre as trevas em redor, porém, Aminadab, contristado, voltou a Jerusalém, reuniu os companheiros, retomou às suas terras e à comodidade transitória sem comentar o estranho encontro com quer que fosse.
Pelo Espírito de Amélia Rodrigues – Pelos Caminhos de Jesus

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O APRENDIZ SINCERO

Gamal Abdul Gamal morava nos arredores de Jerusalém e gozava dos privilégios conferidos por Herodes Ântipas aos intermediários dos mercadores árabes, que, na época da Páscoa, abarrotavam o comércio eqüino da cidade com espécimes raros quão valiosos.
Abastado, construíra confortável vivenda nas terras férteis e verdes de Acra.
Embora odiado pelos judeus, por questões de pátria e religião, tinha acesso às altas rodas, à exceção, apenas, a determinados recintos do Templo.
Retraído por temperamento, Gamal, apesar das transações comerciais a que se dedicava, entregava-se com frequência a profundas meditações em torno dos problemas inquietantes da vida.
Não lhe passara despercebido o movimento reacionário da última Páscoa, que culminara na crucificação do revolucionário carpinteiro Galileu, segundo diziam, que incomodava a segurança de César, na Palestina...
Não podia olvidar que o perseguido, no auge dos sofrimentos oferecera um perdão espontâneo aos algozes, consoante afirmava todos os que presenciaram o hediondo espetáculo. E admirava-se daquele gesto heróico e sublime, por considerar-se incapaz de esquecer e desculpar os olhares de escárnio e as atitudes ríspidas com que os judeus o tratavam, em decorrência de sua ascendência ismaelita.
Certamente, conjecturava, aquele profeta estranho, assassinado em circunstâncias tão graves, era um Enviado dos Céus, tal o receio que inspirava entre os sacerdotes orgulhosos. Seus ensinos, fundamentados num amor jamais conhecido antes, abalavam fortemente os alicerces da decadente prática moisaísta. E, além disso, a auréola que O acompanhava de há muito, como consolidador da felicidade nos corações, atestava-lhe a procedência espiritual superior.
Por essas e outras razões que não saberia definir, sentiu-se incompreensivelmente ligado ao singular Rabi assassinado...
Quando teve ciência do Seu aparecimento, por diversas vezes – aos companheiros desanimados, inclusive numa formosa tarde, no lago de Genesaré –, desejou, fascinado por estranho fervor, participar daquele convívio, por um momento, embora, que fosse. Entretanto, com angústia interior, reconhecia a impossibilidade.
De princípio, receava o ódio contumaz que lhe votavam, bem como a todos os estrangeiros, os ortodoxos intransigente e, depois, pelas inconveniências que possíveis incidentes desagradáveis iriam acarretar-lhes em tão incômoda viagem, aos sítios ribeirinhos do lago.
Apesar de todos os empecilhos, continuou acalentando a esperança de encontrar aquele Mestre e quem muito se falava, aguardando ensejo próprio, à medida que as notícias da sua ressurreição empolgavam a cidade e os povoados...
De imaginação ardente e coração puro, vivendo com probidade, voltou-se à pesquisa daquela vida e, à medida que se inteirava das Suas realizações grandiosas, surpreendia-se amando o Desconhecido.
Posteriormente, não obstante continuasse na afanosa busca de notícias, foi informado de que o Mestre ascendera aos Céus, coroado por dourada nuvem, nos altos da Betânia.
Sem que pudesses explicar-se, naquela noite sentiu a alma mergulhar em profunda melancolia, deixando-se arrastar a copioso pranto.
Afastando-se dos aposentos habituais, recolheu-se à meditação entre os caramanchões de adornada pérgula, banhada pela prata do luar. Tinha sede de paz; desejava reverti-se de serenidade.
As horas avançavam lentas e o alienígena, envolto pela noite, sofria por não haver renunciado a tudo para correr desesperado e entregar-se-lhe de coração.
Enquanto meditava, emocionado, Gamal Abdul Gamal viu formar-se, como em sonho encantador, numa tênue claridade, o esboço delgado de um homem de beleza invulgar.
O rosto, tocado de expressiva bondade, apresentava sinais de evidente tristeza, suavizada pela tranqüilidade dos olhos mansos. Antes que pudesse articular qualquer expressão, ouviu doce murmúrio de voz que lhe indagava:
- “Para que me queres, Gamal?”
- “Quem és, Senhor?” – inquiriu o ismaelita
- “Jesus” – respondeu o visitante em luz, – “o amigo a quem amas de longe.”
O filho das estepes ásperas e dos desertos desejou erguer-se para homenagear o amado visitante. No entanto, não pode fazê-lo. Forte torpor tomou-lhe todo o corpo. Com a voz apagada na emoção, balbuciou:
- “Senhor, eu creio que és Aquele de quem falam as tradições de todos os povos... Anseio tanto por Ti... Dize-me o que é mais importante na Terra, a fim de que eu possa encontrar a felicidade mais tarde, no paraíso?”
- “Amar!” – Respondeu o doce Interlocutor. – “Amar de tal forma que se não distinga entre o adversário e o amigo, perdoando tanto que se não faça diferença entre o ofensor e o benfeitor.”
- “era, Senhor, isto possível?” – indagou, esmagado, o candidato à fé.
- “Sim Gamal...” – redargüiu, sereno. – “Não é demasiado. Foi o que eu fiz, a fim de legar a todos, em forma de lição viva, os ensinos que proferi. Faze isso e viverás...”
- “Mas...”
Ia prosseguir, justificar, arguir, o vendedor de cavalos, quando a formação luminosa se diluiu suavemente, perdendo-se entre os raios de prata da noite em festa.
Deu-se conta: estava a sós.
Como se despertasse de abençoado sonho. Gamal se colocou de pé, reflexionou e, no dia seguinte, Jerusalém, surpresa, soube, que o estrangeiro distinto renunciará às regalias da fortuna e retornara à pátria, após distribuir tudo quanto possuía com os infelizes, numa possível crise de loucura.

Anos mais tarde, entre as tendas ismaelitas, nos altiplanos das montanhas, era comum ouvir-se dos contadores de estórias singular narrativa:
- “Houve, entre nós, um cão infiel, que abandonou as origens do povo orgulhoso, filho de Ismael , para ligar-se a miserável judeu crucificado e para cá voltou a fim de profanar as nossas tradições com as Suas lições. Todavia, a sabedoria do Xeique, após ouvir-lhe as loucuras, mandou atá-lo a dois fogosos corcéis que o despedaçaram entre as pedras escalvadas dos largos horizontes. Tão grande fora a sua idiotia, que antes do suplício, indagado qual seria a sua última vontade, respondeu:
- “Amor-vos e perdoa-vos por amor do meu Senhor...”
Pelo Espírito de Amélia Rodrigues – Quando Voltar a Primavera

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Simeão e o Menino

Dizem que Simão, o velho Simeão, homem justo e temente a Deus, mencionado no Evangelho de Lucas, após saldar Jesus criança, no templo de Jerusalém, conservou-o nos braços acolhedores de velho, a distância de José e Maria, e dirigiu-lhe a palavra, co discreta emoção:
- Celeste menino – perguntou o patriarca –, por que preferiste a palha humilde da manjedoura? Já que vem representar os interesses do Eterno Senhor da Terra, como não vestiste a púrpura imperial? Como não nascestes ao lado de Augustus, o divino, para defender o flagelado povo de Israel? Longe dos senhores romanos, como advogarás a causa dos humildes e dos justos? Por que não viestes ao pé daqueles que vestem a toga dos magistrados? Então poderias ombrear com os patrícios ilustres, movimentar-se-ias entre legionários e tribuno, gladiadores e pretoriano, atendendo-nos à libertação... Por que não chagaste, como Moisés, valendo-se do prestígio do faraó? Quem te preparará, Embaixador Eterno, para o ministério santo? Que era de ti, sem lugar no Sinédrio? Samuel mobilizou a força contra os filisteus, preservando-nos a superioridade; Saul guerreou até a morte, por manter-nos a dominação; David estimava o fausto do poder; Salomão, prestigiado por casamento de significação política, viveu para administrar os bens enormes que lhe cabiam no mundo... Mas... tu? Não te ligaste aos príncipes, nem aos juízes, nem aos sacerdotes... Não encontrarás outro lugar, além do estábulo singelo?!
Jesus menino escutou-o, mostrou-lhe sublime sorriso, mas o ancião, tomado de angústia, contemplou-o, mais detidamente, e continuou:
- Onde representarás os interesses do Supremo Senhor? Escreverás novos livros da sabedoria? Improvisarás discursos que obscureçam os grandes oradores de Atenas e Roma? Amontoarás dinheiro suficiente para redimir os que sofrem? Erguerás novo templo de pedra, onde o rico e o pobre aprendam a ser filhos de Deus? Ordenarás a execução da lei, decretando medidas que obriguem a transformação imediata de Israel?
Depois de longo intervalo, indagou em lágrimas:
- Dize-me, ó Divina Criança, onde representarás os interesses de nosso Supremo Pai?
O menino tenro ergueu, então, a pequenina destra e bateu, muitas vezes, naquele peito envelhecido que se inclinava para o sepulcro...
Nesse instante, aproximou-se Maria e o recolheu nos braços maternos. Somente após a morte do corpo, Simeão veio a saber que o Menino Celeste não o deixara sem resposta.
O Infante Sublime, o gesto silencioso, quisera dizer que não vinha representar os interesses do Céu nas organizações respeitáveis mas efêmeras da Terra. Vinha da Casa do Pai justamente para representá-lo no coração dos homens.
Pelo Espírito de Irmão X – Pontos e Contos

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